A seletividade de cada dia.

Sobre as declarações do novo comandante da ROTA

As declarações do atual comandante da ROTA – Rondas Ostensivas Tobias Aguiar (indico a leitura do livro ROTA 66, do Caco Barcellos), a chamada tropa de elite da polícia militar de São Paulo, causam especial sentimento de repulsa. O comandante afirmou que as abordagens na periferia e na região nobre da Cidade de São Paulo deveriam ser feitas de forma diferente. E mais, como se precisasse, afirmou que se assim não for o policial não é respeitado na periferia. Diante dessas afirmações as inquietações pulam na cabeça de qualquer pessoa.

 

Primeiramente, a afirmação revela aquilo que todos já sabemos, as abordagens na periferia das cidades costumam ser de forma bem diferente das abordagens nas áreas ditas nobres, isso quando ocorrem abordagens nessas áreas, revelando uma seletividade já na escolha das pessoas em função do lugar onde moram ou transitam.

 

A ideia aqui passa por uma revelação aterrorizante: se você mora ou transita em uma região nobre provavelmente a abordagem policial (caso ocorra) será a correta e respeitosa. Porém, se você mora ou transita em uma região periférica da cidade a abordagem será completamente diferente, ou seja, truculenta e fora dos parâmetros legais, porque se diferente for, nas palavras do comandante, o policial não será respeitado. Então, de pronto já podemos identificar uma seletividade da forma de abordar por conta do local.

 

Mas as revelações não param por aí, mais se descortina da fala. O policial que age de forma correta nas regiões nobres é respeitado, porém o seu agir deve ser diferente quando nas regiões periféricas para não ser desrespeitado. Um pensamento verdadeiramente torto. Essa parte da fala do oficial só demonstra um forte preconceito e uma escolha política fundada na condição social para a escolha de quem será ou não abordado. Logo, pelo menos a partir dessa fala não há muitos motivos para a atuação policial nas regiões nobres, a não ser guardar seus moradores de intrusos que possam querer sair da periferia e invadir os bairros nobres. Uma pergunta, onde mora a grande maioria dos policiais militares de São Paulo? Nos Jardins?

 

Mas, diante de tudo que nos revela o discurso do coronel o que mais assombra é que já sabíamos. Talvez por conta da extrema crueza com que foi dito aquilo que já sabíamos o estranhamento tenha sido maior. Novamente, alguns pontos se destacam. Porque a sociedade aceita que seja assim, tomando por premissa que todos nós já sabíamos? Porque não são os filhos das áreas nobres vítimas preferenciais dessas abordagens. Os dados apontam para um verdadeiro extermínio da juventude negra e parda das periferias das grandes cidades, informação que guarda importante relação com a fala do coronel sobre formas diferentes de agir nas periferias e nas áreas ditas nobres das grandes cidades. Só para se ter uma ideia, estudo da Universidade Federal de São Carlos aponta que a polícia, em ocorrências policiais, mata três vezes mais pessoas negras do que pessoas brancas. Essa é a mesma população que mora nas periferias das grandes cidades. Dados do MAPA DA VIOLÊNCIA de 2015 apontam que morrem, 142% mais negros do que brancos por armas de fogo. Novamente, tendo em vista que a população jovem negra se concentra na periferia, nota-se uma morte sistemática dessa população e diante de tais elementos ou a abordagem diferente da polícia na periferia não consegue “resolver o problema da violência” ou ela causa o problema. Na melhor das análises.

 

Mas talvez a mais contundente de todas as conclusões acerca da fala do coronel seja a que aponta para uma necessidade urgente de reformulação de tudo o que se entende por policiamento e segurança pública. Da forma que está, com policiamento, principalmente o militar, fundado em uma ideologia de guerra e seletividade ou para proteção de uns poucos frente aos indesejados a tendência é de aprofundamento dos dramas e aumento da violência.

Original de Alex Mourão


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