Comunicação e poder na esfera pública: um diálogo entre Habermas e Foucault

Reflexões e articulações acerca da comunicação

No livro Comunicação e democracia, Wilson Gomes elucida o pensamento de Jürgen Habermas para explicar conceitos fundamentais na sociedade, tais como o de “publicidade” e o de “esfera pública”. Esta última deve ser compreendida, segundo Gomes (2008), como aquele âmbito da vida social em que interesses, vontades e pretensões que comportam consequências concernentes à comunidade política se apresentam na forma de argumentação ou discussão. O primeiro requisito para a existência da esfera pública, portanto, é a palavra, a comunicação, visto que os interesses dos cidadãos apenas podem ser colocados em pauta e aos olhos do Estado por meio de enunciados que contemplem argumentos ou razões.

 

Para que a esfera pública funcione, enquanto esfera de mediação entre o Estado e a sociedade civil, certas instituições e instrumentos políticos surgiram e foram aperfeiçoados, com destaque para dois: o parlamento e a imprensa. Sobre esta última pode-se dizer que detém lugar estratégico na esfera pública, pois passa a intermediar o raciocínio das pessoas privadas reunidas num público, além de atuar igualmente como instrumento da construção e reunião dos públicos (GOMES, 2008).

 

Nesse contexto, considerando que tecnologias políticas são criadas na contemporaneidade para exercer controle sobre o corpo, a saúde e outros fatores que compõem a existência humana e as condições de vida das pessoas na sociedade (FOUCAULT, 1985), os meios de comunicação de massa têm atuado diluindo os contornos da mesma esfera pública a qual ajudaram a erguer no modelo liberal por meio de uma redução das possibilidades de diálogo e de acessibilidade.

 

Dessa forma, entra em cena uma publicidade focada em expor produtos e ideias para as quais se deseja formas concretas de adesão em detrimento da exposição discursiva de posicionamentos que gerem um debate acessível e conduzido com razoabilidade. Segundo Habermas, a esfera pública tratava-se antes, sobretudo, de discussão, atualmente de sedução; tratava-se de crítica, agora de manipulação.  Manipulação esta que cai no campo de controle do saber e de intervenção do poder, ponto que fundamenta a sociedade normalizadora observada por Foucault. Resultam daí lutas que põem em questão o sistema geral de poder e que contestam as opressões e alienações advindas da sociedade de massas em que vivemos, na ânsia de valorizar, fundamentalmente, o direito à vida.

 

 

Referências bibliográficas

 

GOMES, Wilson. Comunicação e democracia: Problemas e perspectivas. São Paulo: Paulus, 2008. (Coleção Comunicação).

 

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade: A vontade de saber. Biblioteca de Filosofia e História das Ciências, 1985.

Original de Caroline Brito


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