Um debate permanente

A escola sofisticou sua linha de montagem e modernizou sua forma de reproduzir o que já é conhecido? Formar cidadãos é produzir autômatos?

Ilustração de  Jean Marc CotÍ e Villemard, de 1899, representa a escola do ano 2000 imaginada pelos ilustradores franceses.

 

No início do Século XX foi lançada uma série de imagens futuristas tratando da “França no ano 2000”. A imagem que está sendo destacada é de Jean-Marc Côté, “a escola nos anos 2000”: um espaço no qual a tecnologia parece negar a reflexão, excluir a diversidade do pensamento e louvar o reprodutivismo.

 

O jornal O Globo em 2014, publicou uma propaganda da prefeitura do Rio de Janeiro mostrando crianças em uma esteira de um processo fabril com a seguinte descrição: “Nossa linha de produção é simples. Construímos escolas, formamos cidadãos e criamos futuro. Fábrica de Escolas do Amanhã. Mais educação para o Rio de Janeiro”.

 

Publicidade da Prefeitura do Rio de Janeiro, publicada no Jornal Globo em 2014.

 

O futuro sonhado se fez realidade? A escola sofisticou sua linha de montagem e modernizou sua forma de reproduzir o que já é conhecido? Formar cidadãos é produzir autômatos?

 

Berlusconi, na Itália, disse que “professores comunistas transmitem a nossas crianças ideias diferentes dos valores que recebemos de nossos pais”. Não primando pela originalidade, conforme pode ser visto, no Brasil surge um debate em torno da proposta de uma escola sem partido.[1]

 

O que realmente está acontecendo? A modernidade ocidental está em crise e os valores que estão sendo firmados não são de uma pós-modernidade, mas sim, o de um tradicionalismo que nega a razão e busca recuperar os laços sociais, os sentimentos, os costumes e as crenças de um passado submetido a um ser supremo?

 

Parece que temos um pouco de tudo isso... A sociedade se tornou mais complexa e o sonho de progresso do Sec.XVIII trouxe consigo uma série de mazelas (exclusão, subdesenvolvimento, concentração de renda, aumento da violência, ameaça ao meio ambiente, e tantas outras) que fazem questionar o paradigma de tal revolução. O estilo de vida hegemônico no mundo ocidental reflete um processo contraditório no qual a relação entre a tecnologia, a ciência e o capital está impondo mudanças profundas na sociabilidade e subjetividade humana.

 

No Brasil, isso não vem sendo diferente: o passado, o presente e o futuro estão imbricados e fazem parte do cotidiano político e da vida de todos os mortais que estão abaixo da linha do equador.

 

A escola ainda não concluiu as mudanças necessárias ao novo paradigma processo produtivo reivindicado pelos detentores do capital e o discurso do conservadorismo remete o debate para questões anteriores ao Manifesto do Pioneiros.[2]

 

Os intelectuais burgueses sempre colocaram a escola como espaço ideal para questionar os valores do “antigo regime”, a “revolução industrial” necessitou do disciplinamento da nova força de trabalho para cumprir as recomendações de Taylor e  a chamada “revolução tecnológica” vem desafiando um processo formativo mais flexível e criativo. O mundo pós-moderno, contudo, vem se caracterizando como expressão crítica do esgotamento do modelo de pensamento baseado na racionalidade ocidental e do conflito entre as diversas formas de entender o papel da escola no atual momento da sociedade.

 

O contexto atual é de grandes dificuldades, os desafios estão postos no conflito dos diversos paradigmas que envolvem a educação e, mais especificamente, a escola: mais do que nunca é importante se ter clareza aonde queremos chegar.

 

Uma sociedade democrática e menos desigual não pode ser construída negando o debate e a criticidade. A escola não pode ser o espaço do consenso e da reprodução das verdades estabelecidas. A cidadania se faz  na conflitualidade.

 

Não esquecendo Paulo Freire, o caminho se faz caminhando...

 

--

[1] O PL 867/2015 à Câmara Federal , altera a Lei de Diretrizes e Bases da Educação. Dentre várias questões, o artigo 3º do referido projeto diz o seguinte: “Art. 3º. São vedadas, em sala de aula, a prática de doutrinação política e ideológica bem como a veiculação de conteúdos ou a realização de atividades que possam estar em conflito com as convicções religiosas ou morais dos pais ou responsáveis pelos estudantes.” 

 [2] O "Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova" vislumbrava a possibilidade de interferir na organização da sociedade brasileira do ponto de vista da educação. Redigido por Fernando de Azevedo, o texto foi assinado por 26 intelectuais, entre os quais Anísio Teixeira, Afrânio Peixoto, Lourenço Filho, Roquette Pinto, Delgado de Carvalho, Hermes Lima e Cecília Meireles. Ao ser lançado, em meio ao processo de reordenação política resultante da Revolução de 30, o documento se tornou o marco inaugural do projeto de renovação educacional do país. 

Original de Horácio Frota


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