O perigo do obscurantismo como perspectiva pedagógica

Dizer que as ideias de Paulo Freire são valorizadas porque são petistas é besteira e deveria servir para atualização do FEBEAPÁ na era Temer.

Na trilha aberta pelo conservadorismo político, as manifestações de alguns segmentos da sociedade brasileira geram diversos comportamentos no restante da sociedade: riso, incredulidade, náusea, revolta, raiva e medo. A metralhadora giratória do atraso, atira para todos os lados: combate aos direitos humanos, ataque as conquistas sociais, justificativa a violência policial contra os mais pobres e defesa dos princípios liberais como se estivéssemos entre o final do século IX e início do século XX.  O ridículo vem se tornando perigoso, haja vista se encontrar envolvido no manto da intolerância e do ódio.

Caminhando nesse retrocesso, os seus ideólogos estão se voltando contra a educação e pregando uma “escola sem partido”. No dizer dos seus arautos, existe a possibilidade do exercício da neutralidade no ato de ensinar. A defesa da neutralidade demonstra o desconhecimento da diferença entre esse conceito e o de imparcialidade: dizer que todo processo educativo é político, implica em afirmar de que não existe neutralidade; contudo, não significa dizer que seja partidário. O próprio discurso da neutralidade é o alinhamento a uma concepção de postura frente ao mundo e as suas contradições.

Negar a possibilidade de crítica ao pensamento de Paulo Freire é ser contrário a própria concepção freireana. Dizer, no entanto, que o autor de “Pedagogia como Prática de Liberdade”, publicado em 1967, reproduz o pensamento do Partido dos Trabalhadores ou que sua notoriedade resulta apenas de uma pratica petista, significa analfabetismo político – o pior de todos os tipos de analfabetismo. No momento que estamos ouvindo tais afirmações de seguidores do projeto “Escola sem Partido”[i], sentimos falta do Estanislaw Ponte Preta (Sergio Porto) e de seu FBAPÁ [ii].

No texto de Paulo Freire, logo no inicio da ditadura militar, já se encontrava explicitado que tanto a democracia quanto a educação devem tomar por base o homem livre e reflexivo de sua realidade. Para o autor, o que estava em curso era a necessidade de alfabetização dos brasileiros, uma exigência da cidadania. O livro é uma narrativa da experiência de implantação de 20 mil círculos de cultura em todo o país, haja vista sua ênfase, ao afirmar que na década de 1960, no Brasil, o número de crianças em idade escolar, sem escola, aproximava-se de 4.000.000, e o de analfabetos, a partir da faixa etária de 14 anos, 16.000.000. Esta experiência tratou da educação de homens novos, leitores e decifradores do mundo. Thiago de Mello, no seu poema “Canção Para os Fonemas da Alegria”, já comentava sobre os resultados dessa obra alfabetizadora junto aos trabalhadores:

As vezes nem há casa: é só o chão. Mas sobre o chão quem reina agora é um homem diferente, que acaba de nascer: porque unindo pedaços de palavras aos poucos vai unindo argila e orvalho, tristeza e pão, cambão e beija-flor, e acaba por unir a própria vida no seu peito partida e repartida quando afinal descobre num clarão que o mundo é seu também, que o seu trabalho não é a pena que paga por ser homem, mas um modo de amar — e de ajudar o mundo a ser melhor.

Em 1967, também antes da existência do PT, foi lançado outro livro, “Pedagogia do Oprimido”, obra disponível nas bibliotecas de quase todos os países do mundo – caso raro da produção intelectual brasileira.

Neste livro, fica salientado que uma pedagogia humanista e libertadora, deverá ter dois momentos distintos. O primeiro, em que os oprimidos vão desvelando o mundo da opressão e vão se comprometendo, na práxis, com a sua transformação; o segundo, em que, transforma a realidade opressora e passa a ser a pedagogia dos homens em processo permanente de libertação. Para seu autor, a “[...] desumanização, não se verifica apenas nos que têm sua humanidade roubada, mas também, ainda que de forma diferente, nos que a roubam. “        

A compreensão do autor é que o processo de educação é um ato eminentemente humano, pois só os homens têm consciência de sua incompletude e, justamente por isso, busca compreender o mundo que vive em sua finitude. Mas é no ser que se transforma que ele percebe a sua importância; portanto, é na educação problematizadora que a história é gerada e que se humaniza a sociedade.

Freire, autor que atualmente vem sendo criticado pelos conservadores brasileiros, foi um educador que ganhou 29 títulos de Doutor Honoris Causa de universidades da Europa e América, recebeu o prêmio da UNESCO de Educação para a Paz e   foi declarado  o Patrono da Educação Brasileira.

 O que existe na raiz das manifestações de tal grupo é uma tentativa de institucionalização de uma escola da opressão; ou seja, antidialógica. Os defensores de tal escola defendem, na pratica, um atrelamento ao pensamento conservador. Exatamente a pratica que vem sendo criticada na Pedagogia do Oprimido: pedagogia na qual o professor é quem faz do seu aluno um mero depositário dos valores dominantes na sociedade. “Escola sem Partido” é uma tentativa de conquistar, dividir, manipular e perpetuar uma invasão cultural, como diz Freire.

 O resto é besteira e deveria servir para atualização do FEBEAPÁ na era Temer.

 

[i] Em nível nacional, um dos principais expoentes da ‘escola sem partido’ é o deputado Izalci Lucas (PSDB-DF). Outro deputado do PSDB, deputado Rogério Marinho (PSDB-RN) é autor do PL 1411/2015, que tipifica e estabelece punições para o crime de “assédio ideológico”. O deputado João Campos de Araújo (PSDB-GO) compara a discussão política na escola ao ‘assédio sexual’

[ii] FEBEAPÁ - Festival de Besteiras que Assola o País livro escrito pelo jornalista Sergio Porto ( Estanislaw Ponte Preta) que tinha como característica criticar as besteiras ditas pelos militares e adeptos da ditadura de 1964, a exemplo de quando mandaram prender o autor grego Sófocles que morreu há séculos, por causa do conteúdo subversivo de uma peça encenada na ocasião.

Original de Horácio Frota


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