Sussuí: Cotidiano de vida e trabalho no semi-árido nordestino

Estratégias da agricultura familiar no semiárido nordestino.

por Virginia Conde de Matos Pereira Portela
e Liduina Farias Almeida da Costa

Eu só sei ser agricultor. Essa é minha vida!”. Diz um dos entrevistados da pesquisa realizada em Sussuí (Quixadá/Ceará) para compreender como os agricultores familiares do semiárido nordestino criam estratégias de sobrevivência e de reprodução social agricultura familiar. Repleta de sentido, essa afirmativa nos instigou a uma maior aproximação com o cotidiano dessa comunidade, visto que nos distintos contextos do desenvolvimento agrário brasileiro predominaram os interesses da lucratividade.

A pesquisa nos propiciou compreender que o conceito de comunidade alinhado apenas ao consenso ou à identidade é limitado, pois, quando não a concebemos como instância inserida numa sociedade de classes antagônicas e atravessada por variadas formas de desigualdades. Na verdade, identificamos em Sussuí que apesar de seus moradores pertencerem ao mesmo limite territorial, o que há de semelhante entre eles é a pobreza, a baixa renda, o acesso restrito à “terra de trabalho” e muita dificuldade na produção dos próprios alimentos. Porém, as famílias e/ou indivíduos têm percepções diferenciadas sobre os processos de exploração a que estão submetidos e desenvolvem estratégias de sobrevivência e de reprodução social distintas e particulares.

Sussuí era uma Fazenda que foi desapropriada pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma agrária (INCRA) na década de 1960, parcelada e distribuída entre os “moradores de favor” que lá trabalhavam. Um entrevistado referiu as muitas dificuldades enfrentadas “no início da comunidade”: a Fazenda teria sido “destruída” no processo de desapropriação e cada um teve que trabalhar muito para levantar suas casas de taipa e definir um local de plantio. Mesmo tendo aspectos objetivos, a comunidade é também uma construção simbólica, cujos mitos são referidos pelos agricultores ao relacionar crenças e valores a elementos da natureza que os vinculam à terra, mesmo que durante muito tempo seu cotidiano tenha sido subjugado por interesses alheios. O sentido de comunidade começa a se criar, conforme um entrevistado, quando as famílias se multiplicam mediante casamentos entre parentes e recebem doações de pedaços da parcela de terra dos pais ou avós, para construir suas casas e plantar seus roçados.

Realçamos que na comunidade permanecem processos de submissão dos trabalhadores rurais de várias outras maneiras, embora tenham se livrado da submissão direta ao dono da terra que agora lhes pertence. Originária de um modelo de desenvolvimento e de modernização da agricultura que descartou e excluiu pessoas essa submissão hoje é mais patente nas relações de trabalho que eles executam fora da comunidade.


Vale dizer também que no Nordeste rural e seco, as formas de submissão têm particularidades e suas consequências mais patentes ainda são os baixos índices sociais de vida, em comparação com os das demais regiões, especialmente Sudeste e Sul.

Mesmo assim, percebemos em Sussuí uma caminhada de dignidade e esperança, não noutra forma de sociedade, mas pelo menos numa vida digna.

Em termos de infraestrutura, a comunidade possui poço profundo, dessalinizador de água, água encanada, alguns banheiros, cisternas domiciliares, centro comunitário, cisterna comunitária e açude. Esses equipamentos foram conquistados com o acompanhamento social da OSCIP Instituto Nordeste Cidadania, mediante parcerias públicas.

A maioria das famílias de Sussuí é integrante do Programa Bolsa Família, cultiva gêneros alimentícios para subsistência (feijão e milho) e vende sua força de trabalho, eventualmente, fora da comunidade. Os poucos agricultores que comercializam produtos da terra o fazem estrategicamente: o feijão é armazenado em tambores e funciona como uma espécie de “poupança”. É vendido quando não há dinheiro para comprar outros gêneros alimentícios. Às vezes, quando o valor do produto está em alta, o agricultor consegue auferir uma “renda extra”. Embora seja esse o caso de uma família, que “gera sua renda” na própria comunidade – planta feijão e sorgo, tem um quintal produtivo e cria animais, como porcos, vacas e galinhas – devido a sua multiplicação, os filhos e o genro trabalham no corte de madeira (lenha), a serem utilizadas por cerâmicas da região.

Conforme relatos escutados na comunidade, trata-se de trabalho “muito pesado, mas paga bem e é a única forma de se manter”. Eles passam 15 dias trabalhando dentro da mata”, possivelmente de forma clandestina e sem equipamentos de proteção, dormem e comem de modo improvisado e precário. A remuneração é de R$ 10,00/m² de madeira extraída. Diz um agricultor e pescador: “Bom não é, mas a gente tem que tirar de algum canto pra viver”. Ele mira o horizonte ao relembrar que já passou fome com sua família devido não ter renda certa e diz que só depois de aceitar esse trabalho, vem conseguindo manter sua casa. Segundo relato de um entrevistado, ele conseguiu aposentadoria só depois de ter ficado “de cara com a morte”. Acrescenta que devido ao excesso de esforço ao carregar madeira nas costas, o coração quase parou de funcionar e por isso foi internado e submetido à cirurgia. Ele afirma sentir piedade dos jovens da comunidade ao saber que esse é o caminho da maioria deles, desde os 12 anos de idade.

Ao se ausentar da família e da comunidade, sistematicamente, durante quinze dias seguidos, o agricultor se ausenta também de suas raízes, do conjunto de outros valores que considera importantes para sua identidade e mergulha num mundo provisório, justificado pela mercantilização barata de sua mão de obra, mas que ajuda na sustentação material da família e na permanência em sua “terra de trabalho”.

As estratégias de reprodução social, na verdade são motivadas por necessidades básicas dos agricultores/famílias de Sussuí. Ao mesmo tempo, elas expressam que as relações de profunda exploração no processo de desenvolvimento agrário brasileiro, não os transformou num segmento social sem reações. Cada uma dessas estratégias traz consigo a esperança de continuidade na “terra de trabalho”. Apenas eventualmente, alguma família permanece lá porque não visualiza outra opção. A grande maioria delas está lá porque também valoriza suas raízes, quer afirmar seu direito à “terra de trabalho” e reivindica reconhecimento como cidadão.

Muito embora a vida cotidiana em Sussuí se expresse à semelhança de um palco para uma inserção rasa dos trabalhadores, fragmentando-os em seu dia a dia, garantindo apenas a sua reprodução individual e da sua família, percebemos em seu cotidiano que as estratégias não são vazias de sentido, nem desvinculadas do processo histórico. Ao contrário, elas visam o fortalecimento de suas raízes e a preservação de valores significativos para eles como a autonomia, a família e a “terra de trabalho”.

Compreender o cotidiano de trabalho e de vida em Sussuí nos levou a reconhecer que não há um conceito acabado de agricultura familiar no semiárido nordestino. Há, sim, processos que ora viabilizam ora obstaculizam a reprodução social da pequena produção familiar. Podemos então, pensar em agriculturas familiares, compreendendo que longe de ser uma categoria social fadada à extinção, o que encontramos na pesquisa foram trabalhadores explorados, mas esperançosos na possibilidade de continuar em sua pequena terra, plantando e colhendo com suor do seu trabalho.

Em síntese, Sussuí revela a incoerência de um tipo de “Reforma Agrária” do passado “ feita para não dar certo”: parcelamento da terra e ausência de apoio financeiro e técnico para os “parceleiros”. Revela também que embora o Estado hoje venha oferecendo apoio a agricultura familiar, a inclusão dos pequenos agricultores na dinâmica agrária brasileira ainda continua muito precária.

Original de Liduina Farias


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