Etnociências: Saberes Populares e Ensino de Ciências

Etnociências do greco-latim onde éthnos é a identidade de origem e condição, incluindo valores culturais materiais e imateriais do ser. Scientia: conhecimento sistemático produzido com métodos, teorias, experimentações e validação contextual.

Qué tipo de saber se quiere descalificar cuando pergunta si esto es uma ciencia? Qué sujeto hablantes, con experiência y saber, se quiere reducir a um estatuto de minoria cuando se dice: ‘Yo hago este discurso, hago um discurso cientifico y soy um cientifico?

FOUCAULT apud TRUEBA, 2002.

 

A ideia de abraçar uma linha de pesquisa no Grupo de Pesquisa História, Cultura, Memória e Educação (HICUME) da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), vinculado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológica (CNPq), surgiu a partir de uma disciplina de práticas educativas ministrada no Curso de Licenciatura em Ciências da Natureza e Matemática do Instituto de Ciências Exatas e da Natureza (ICEN), da referida Universidade. Sendo mais preciso ainda, a ideia veio à tona a partir de uma aula de campo procedida na Escola Indígena da Tribo Kanindé, Manoel Francisco dos Santos, localizada na localidade de Fernandes, em Aratuba-CE.

A aula aconteceu no dia 07 de outubro de 2014 em uma das salas da Escola Indígena e contou com a presença e participação da direção e núcleo gestor, dos professores e alguns membros da comunidade local. A aula ocorreu em forma de debate onde todos puderam participar indagando, observando e contribuindo para uma aprendizagem inter e transdisciplinar. O corpo docente da escola realçou a importância da Unidade Escolar para a formação intelectual da comunidade dos descendentes de índios e também para os não índios sempre de forma integral e intercultural visando a preservação da cultura do povo Kanindé. "Um momento como esse é muito importante para nós que estudamos na UNILAB, com o foco voltado para uma educação integrada", enfatizou Wanderson, aluno da Turma de Práticas IV. A referida Escola preserva a História e a Memória da essência dos nossos ancestrais vistos pelos alunos através de materiais, símbolos e ornamentos do povo nativo Kanindé no II Museu Indígena do Brasil fundado na e pela comunidade ao lado da Escola.¹

A educação e formação da sociedade brasileira padecem ainda de males de origens fruto de uma tentativa de transplantação cultural eurocêntrica impregnada nas entranhas das ideias e nos currículos educacionais do País. Esse legado estranho às nossas raízes ancestrais tenta de todas as formas resistir ao tempo e as possíveis tentativas de transformações no campo da formação de uma intelligentsia autônoma de um povo que tem em sua gênese cultural ontológica as características de várias nações nativas anteriores à aventura expropriadora do colonizador europeu. Como complementação some-se a essa ancestralidade nativa (indígena como queiram), a construção em todos os aspectos da formação social um segundo tipo humano: os africanos.

A ignorância a essa realidade ôntica da composição da nação e o abraço idolatrado às ideias estrangeiras tornaram o ensino-aprendizagem no país vinculado sempre às práticas pedagógicas passivas de um ensino teórico distante da realidade dos aprendentes, sobretudo na educação básica. Esse modelo de educação/formação, principalmente na seara das ciências empírico-formais e formais de pilastras fincadas no cientificismo eurocêntrico do século XIX, colonizou currículos e alienou nossas capacidades cognitivas de rupturas. É diante deste quadro de (de)formação da intelligentsia brasileira que as etnociências incentivadas como proposta metodológica inter e transdisciplinar pelo matemático brasileiro Ubiratan D’Ambrósio, o físico romeno Basarab Nicolescu e o antropólogo francês Edgar Nahoum (Morin), podem e devem ser priorizadas como recurso didático- pedagógico presente e permanente na agenda das políticas públicas educacionais (TRUEBA, 2002; D’AMBRÓSIO, 1992; NICOLESCU, 2001; MORIN, 1986).

As etnociências parte dos saberes populares para alcançar, compreender e explicitar o conhecimento ou prática sistemática produzida com métodos, teorias, experimentações submetidos ao crivo do ensino e da pesquisa (Ciência). O resultado dessa dialética ancora na etnociência aplicável aos vastos campos do conhecimento no âmbito da (etno)antropologia, (etno)biologia, (etno)física, (etno)matemática, (etno)química, (etno) história, enfim, nos etnossaberes possíveis a partir da realidade do ser. Não raro as etnociências operacionalizam com a tríade lévistrauissiana etnografia-etnologia-antropologia levando em consideração a ancestralidade dos seres humanos e suas produções culturais. Esta é também uma estratégia metodológica da produção de conhecimento científico nas ciências humanas e sociais (CHIZZOTTI, 2011).

As etnociências como proposta metodológica podem ser utilizadas não somente visando a crivação de conteúdos, mas, para a desmistificação do conhecimento científico como algo alheio a realidade dos aprendentes. Os artefatos e objetos concretos do cotidiano como: músicas, artes, danças, culinária, religiosidades, mitos e outras práticas fazem parte do construto humano e podem ser utilizados para se tentar explicar e compree nder a aventura humana na terra partindo, muitas vezes, do senso comum para se chegar ao conhecimento eleito como científico. As etnociências permite desenvolver o conhecimento em busca de outras realidades do real e não somente a partir do que se elegeu como real ou ciência pronta e acabada, estática (BUNGE, 1991, 2009; POPPER, 1994).

Considerando as riquezas da biodiversidade e diversidade cultural existentes no Brasil está na hora de o país abraçar com investimento robusto em renovadas metodologias de ensino-aprendizagem. Certamente, este recurso metodológico aplicável e aplicado em todos os níveis da educação possibilitará o engajamento de docentes-discentes com mais interesses enxergando significados significantes na arte e técnica do ensino-aprendizagem.

 

¹ Disponível em:
http://mkindio.blogspot.com.br/

 

 

 

REFERÊNCIAS

BUNGE, Mario. Teoria e realidade. São Paulo: Perspectiva, 2009.

CHIZZOTTI, Antonio. Pesquisa qualitativa em ciências humanas e sociais. 4. ed. – Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.

D’AMBRÓSIO, Ubiratan. Enseñanza de La matemática. Volume 1- nº 3 - Dicembre,
1992, Campinas, Brasil.

MORIN, Edgar, La Méthode III, La Connaissance de la Connaissance, Livre
Premier: Ant hropologie de la Connaissance. Paris, Seuil, 1986.

NICOLESCU, Basarab. O Manifesto da Transdisciplinaridade. São Paulo: Triom,
2001.
SILVEIRA, F. L. da. POPPER, Karl e o racionalismo crítico. Scientia, São Leopoldo, 5(2): 9-28, 1994.

TRUEBA, César Carrilho. Ciencia y etnociencia. Revista Ciencias, nº 066 (2002). Universidad Autónoma de México.

Original de Antônio Roberto Xavier


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